palavrear

era proibido, esquecido, deturpado. um romance que jamais deveria ter sido contado.

nomes na parede

há tantos nomes escritos na parede que eu já nem lembro à quem pertencem.
há tantos nomes escritos na parede que já não vejo mais o branco da tinta.
há tantos nomes escritos na parede que talvez seja hora de escrever em meu coração.
nomes do passado, nomes do presente, nomes do futuro e nomes imaginários.
nomes que de nada representam. nomes que dizem tudo.
nomes que contam histórias.
há tantos nomes escritos na parede que já não cabe mais parede entre os nomes.
há tantos nomes escritos na parede que, um dia, a parede irá cair.
desfalecer.

Arquivado como:Diogo Moraes

escolha o seu tom de preto favorito

é irônico como um amor tão próximo e tão presente, pode ser, ao mesmo tempo, um amor tão platônico e intocável que deve ser esquecido.
como tentar respirar debaixo d´água. tanto ar por perto e você não conseguir chegar à superfície pra respirar. tão perto e tão longe.
falta ar. falta fôlego. falta tudo.

às vezes me pergunto porque é tão fácil amar alguém e tão difícil esquecer. mais uma vez, como em todas as vezes em que me questiono, eu me deparo com uma pergunta sem resposta e vários caminhos de pensamentos, mas nenhum me leva à lugar nenhum.
como é fácil chorar com uma música triste ou uma lembrança, como é fácil sorrir ao imaginar situações diferentes para os ocorridos. como uma realidade alternativa. uma fuga de todo o sofrimento. uma tentativa de fuga.

são como setas desenhadas no pulso, e não importa quais direções elas tenham, o que importa realmente é para que lado você aponta.
mas, talvez, seja hora de apontar pra baixo. para o túmulo. pois, todo amor, por mais perfeito que seja, tem um fim.
e não adianta fugir.

Arquivado como:Diogo Moraes

de mim, para o meu passado.

querido Eu,

entre tantos medos e receios, eu te encontrei escondido em um ser frágil, cego e perdido. te observei de longe durante tantos anos e pude aprender com os seus erros e, só assim, conseguir me tornar quem você é hoje.
eu via o quanto você era feliz, mas ao mesmo tempo via o quanto você era ingênuo, inocente e até leviano com a verdade, as coisas e as pessoas.
era estranho ver que para você, a felicidade era ignorar suas necessidades e fazer os outros felizes atendendo às necessidades deles, negligênciando suas próprias vontades, desejos e sentimentos. para mim, era como viver dependendo de minúsculas “doações” de felicidade vinda daqueles que você ajudava. era tão complexo quando absurdo. chegava à ser pertubadora a maneira como você se negava à dar-se um momento de egoísmo ou de vontade própria. eram tantos sacrifícios e eles jamais serão lembrados. hoje você se vê sentado, sozinho, no meio do nada, fingindo ser feliz enquanto seu egoísmo te domina e te torna cruel para com os outros.
eu também notei que você se contentava com tão pouco, só para não precisar lutar por aquilo que realmente queria ou para não precisar admitir, para os outros e, principalmente, para sí próprio, que aquilo não era o suficiente, que sua vontade era maior e jamais caberia naquele contentamento minúsculo que tentava esboçar um sorriso. um altruísmo comovente, mas patético de se viver. talvez você chegue à me julgar idiota, mas agora você precisa de muito para ser feliz
ainda lembro dos seus olhos vibrantes em cada novidade de que você vivia e quão bela era a exaltação dessas coisas. hoje você não é mais assim. cada conquista é apenas uma conquista, comemorada com um sorriso forçado e discreto, talvez um sopro de felicidade no coração, que logo é substituída por uma seriedade, e até frieza, por assim dizer, que vem te dominando à cada dia mais. é como se você estivesse conquistando degraus nessa escada tão íngrime apenas por conquistar, para não se deixar cair ou fracassar.
sinto muito que você tenha mudado tanto de antes para quem somos hoje. se eu disser que não sinto saudade, estarei mentindo, mas também se eu disser que quero voltar à ser como você, eu estaria mentindo mais ainda. apenas me nego à regredir. talvez quando você for eu, você entenda.

saudades imensas de você.
do seu Eu presente.

Arquivado como:Cartas, Diogo Moraes

RECESSO: DIA 7

Ser ou não ser?

estive me questionando o que eu posso ser, o que eu posso não ser e, mais ainda, o que eu posso conseguir sendo o que sou.
tão confuso quanto antes, eu cheguei à conclusão de que talvez eu não seja nada e que nada é tudo o que posso ser.
sei que posso mudar o futuro, mas, infelizmente, eu vivo o presente, que é nada menos que o reflexo do meu passado patético, de escolhas e amores patéticos, baseados em sentimentos patéticos. talvez meu futuro seja diferente. talvez eu faça escolhas de forma racional e me torne apenas mais uma sombra de ser humano, como todos os outros. vivendo apenas de falsas lembranças do que eu poderia ter sido.
mas ao menos, eu não morrerei sofrendo por ter perdido minha vida esperando por um amor que nunca chegou ou que nunca existiu.
ao menos, eu não terei certeza de que estraguei tudo, tentando ser feliz.

Arquivado como:Diogo Moraes, Recesso

RECESSO: DIA 6

um breve momento na noite.

recosto-me no parapeito frio daquela noite. olho para baixo e contemplo a rua vazia de carnaval. palavras são soprada em meus ouvidos enquanto escrevo uma  história. uma história real fantasiada pela minha juventude.
já passa das dez quando me sento e olho em volta.
muita coisa mudou, mas a bagunça do meu quarto continua a mesma.os papéis espalhados pela mesa, a corrente colocada em cima da cômoda.
a saudade jogada em um canto escuro.
guardo minha história no bolso enquanto me arrumo.
ajeito os cabelos desgrenhados, escolho uma boa roupa e visto-a.
deitar-me-ei em minha cama, em não muito breve, mas quero estar arrumado para sonhar.
sonhos.
a única coisa que me resta.
e eu me olhando no espelho enquanto me arrumo para os mesmos.
tudo isso não se diferencia dos meus dias normais. exceto por um fator.
o frio que corre por entre as grades de minha janela, agora corre também por minha espinha.
talvez aquela história não tenha valor. talvez jamais devesse ter sido contada.
penso em rasgar o papel e atirá-lo pela janela, mas algo me impede.
acho que a história que tanto me machuca é que me sustenta. que mantém minha cabeça de pé e que tanto me fez mudar.
guardo o papel em uma caixa, no fundo do meu guarda-roupas e tento esqueçer.
amanhã será outro dia.

Arquivado como:Diogo Moraes, Recesso

RECESSO: DIA 5

O Desejum.

o mais difícil de se estar em jejum, talvez seja querer comer e simplesmente não se perimitir ou  não poder. assim como estar em jejum, é difícil amar ou querer alguém e simplesmente não se perimitir ou  não poder, seja pela vida, pela história ou simplesmente pelo sentimento não ser recíproco.
querer preencher o espaço vazio no coração. sentir a fome de amar e não poder nem tocar, nem sentir o cheiro ou o sabor de tal amor.
queria poder apenas me saciar. encher meu ser com tudo o que pudesse encher e empanturrar-me de felicidades e sorrisos.
mas querer é tão subjetivo como viver. é atirar no escuro e esperar que a bala não volte, ou volte. querer é sentir cada pedaço do chão por qual se anda, sem saber aonde irá levar. viver é sentir cada momento dessa caminhada.
desejo sair desse jejum, mas isso não é algo que cabe à mim. não depende somente de mim para que o alimento de minha alma chegue até mim. depende de tantos e de tudo, que está fora do meu alcançe querer ou poder.
talvez eu deva continuar com fome e sentir meu estômago e meu íntimo se corroerem e destruírem-me por dentro, enquanto eu sorrio para o céu e minto para mim mesmo, dizendo que está tudo bem.

Arquivado como:Diogo Moraes, Recesso

RECESSO: DIA 4

Procurando por Atlântida.

talvez seja difícil explicar porque procuramos por algo tão antigo e soterrado por mares como Atlântida, mas é fácil explicar porque procuramos por algo tão antigo e soterrado por lágrimas como o amor.
é como procurar um mito em meio à tantas verdades, só para argumentar que é a razão de viver.
mais difícil ainda, é tentar explicar porque mesmo sabendo que, assim como Atlântida não existe, o amor também não existe e mesmo assim, amantes e cientistas continuam procurando incansávelmente sua fórmula ou a explicação para que isso aconteça.
pra quê? pra quê tudo isso? simplesmente para dizer que, alguma vez na vida, conseguiu um ombro no qual se apoiar? pra dizer que em algum momento teve um carinho quando precisou?
é como nadar em águas profundas sem um cilindro de oxigênio. no começo tudo é uma maravilha, mas chega uma hora em que o ar do pulmão acaba e só resta se entregar às profundezas e se afogar. uma viagem sem volta.
paro pra me perguntar, será que Atlântida não “se afundou” para que jamais fosse procurada e as pessoas pudessem seguir por campos e motanhas sem lembrar de tudo o que ela propiciou?
procurar por amor é como procurar por Atlântida: um dia você pode até achar, mas ela estará em ruinas e você verá que a busca foi em vão. só restaram saudades e desilusões.

Arquivado como:Diogo Moraes, Recesso

Cronologia

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