palavrear

era proibido, esquecido, deturpado. um romance que jamais deveria ter sido contado.

RECESSO: DIA 7

Ser ou não ser?

estive me questionando o que eu posso ser, o que eu posso não ser e, mais ainda, o que eu posso conseguir sendo o que sou.
tão confuso quanto antes, eu cheguei à conclusão de que talvez eu não seja nada e que nada é tudo o que posso ser.
sei que posso mudar o futuro, mas, infelizmente, eu vivo o presente, que é nada menos que o reflexo do meu passado patético, de escolhas e amores patéticos, baseados em sentimentos patéticos. talvez meu futuro seja diferente. talvez eu faça escolhas de forma racional e me torne apenas mais uma sombra de ser humano, como todos os outros. vivendo apenas de falsas lembranças do que eu poderia ter sido.
mas ao menos, eu não morrerei sofrendo por ter perdido minha vida esperando por um amor que nunca chegou ou que nunca existiu.
ao menos, eu não terei certeza de que estraguei tudo, tentando ser feliz.

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RECESSO: DIA 6

um breve momento na noite.

recosto-me no parapeito frio daquela noite. olho para baixo e contemplo a rua vazia de carnaval. palavras são soprada em meus ouvidos enquanto escrevo uma  história. uma história real fantasiada pela minha juventude.
já passa das dez quando me sento e olho em volta.
muita coisa mudou, mas a bagunça do meu quarto continua a mesma.os papéis espalhados pela mesa, a corrente colocada em cima da cômoda.
a saudade jogada em um canto escuro.
guardo minha história no bolso enquanto me arrumo.
ajeito os cabelos desgrenhados, escolho uma boa roupa e visto-a.
deitar-me-ei em minha cama, em não muito breve, mas quero estar arrumado para sonhar.
sonhos.
a única coisa que me resta.
e eu me olhando no espelho enquanto me arrumo para os mesmos.
tudo isso não se diferencia dos meus dias normais. exceto por um fator.
o frio que corre por entre as grades de minha janela, agora corre também por minha espinha.
talvez aquela história não tenha valor. talvez jamais devesse ter sido contada.
penso em rasgar o papel e atirá-lo pela janela, mas algo me impede.
acho que a história que tanto me machuca é que me sustenta. que mantém minha cabeça de pé e que tanto me fez mudar.
guardo o papel em uma caixa, no fundo do meu guarda-roupas e tento esqueçer.
amanhã será outro dia.

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RECESSO: DIA 5

O Desejum.

o mais difícil de se estar em jejum, talvez seja querer comer e simplesmente não se perimitir ou  não poder. assim como estar em jejum, é difícil amar ou querer alguém e simplesmente não se perimitir ou  não poder, seja pela vida, pela história ou simplesmente pelo sentimento não ser recíproco.
querer preencher o espaço vazio no coração. sentir a fome de amar e não poder nem tocar, nem sentir o cheiro ou o sabor de tal amor.
queria poder apenas me saciar. encher meu ser com tudo o que pudesse encher e empanturrar-me de felicidades e sorrisos.
mas querer é tão subjetivo como viver. é atirar no escuro e esperar que a bala não volte, ou volte. querer é sentir cada pedaço do chão por qual se anda, sem saber aonde irá levar. viver é sentir cada momento dessa caminhada.
desejo sair desse jejum, mas isso não é algo que cabe à mim. não depende somente de mim para que o alimento de minha alma chegue até mim. depende de tantos e de tudo, que está fora do meu alcançe querer ou poder.
talvez eu deva continuar com fome e sentir meu estômago e meu íntimo se corroerem e destruírem-me por dentro, enquanto eu sorrio para o céu e minto para mim mesmo, dizendo que está tudo bem.

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RECESSO: DIA 4

Procurando por Atlântida.

talvez seja difícil explicar porque procuramos por algo tão antigo e soterrado por mares como Atlântida, mas é fácil explicar porque procuramos por algo tão antigo e soterrado por lágrimas como o amor.
é como procurar um mito em meio à tantas verdades, só para argumentar que é a razão de viver.
mais difícil ainda, é tentar explicar porque mesmo sabendo que, assim como Atlântida não existe, o amor também não existe e mesmo assim, amantes e cientistas continuam procurando incansávelmente sua fórmula ou a explicação para que isso aconteça.
pra quê? pra quê tudo isso? simplesmente para dizer que, alguma vez na vida, conseguiu um ombro no qual se apoiar? pra dizer que em algum momento teve um carinho quando precisou?
é como nadar em águas profundas sem um cilindro de oxigênio. no começo tudo é uma maravilha, mas chega uma hora em que o ar do pulmão acaba e só resta se entregar às profundezas e se afogar. uma viagem sem volta.
paro pra me perguntar, será que Atlântida não “se afundou” para que jamais fosse procurada e as pessoas pudessem seguir por campos e motanhas sem lembrar de tudo o que ela propiciou?
procurar por amor é como procurar por Atlântida: um dia você pode até achar, mas ela estará em ruinas e você verá que a busca foi em vão. só restaram saudades e desilusões.

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RECESSO: DIA 3

Tentando dizer à mim mesmo quem sou.

dizem que suas escolhas definem quem ou o quê você é, mas eu fico me perguntando se quem eu sou é definido pelo que eu escolhi ou se é definido por aquilo que eu realmente penso?
muitas vezes, nossas escolhas não são decididas por aquilo que pensamos, e sim por sentimentos primitivos e passageiros que nos cegam e nos controlam, como se incoporássemos as razões inexplicáveis para cada desejo.
são como momentos de euforia passageira que impede de raciocinar e acabamos por decidir o que não queremos ou fazer o que não deve ser feito. quando o emocinal ultrapassa o racional e nos vemos à beira de um abismo sem volta e, para o coração, a única opção seria cair.
será que eu tenho que, algum dia, me definir para alguém? ou será que eu posso apenas me contentar em somente eu conhecer minha verdadeira essência?
talvez eu não precise saber quem sou ou talvez eu me machuque à toa. talvez eu possa ser a liberdade ou uma alma perdida. talvez de nada adiante saber quem sou, se os segundos passam, as águas correm e os sóis se escondem, fazer eu ser diferente à cada momento.
ou talvez só falta eu me encontrar de verdade.

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RECESSO: DIA 2

Quando sonhos e pesadelos se juntam.

dias em que sonhar pode ser fácil, o difícil é controlar esses sonhos.
existem coisas que agente deseja, que agente sonha, que agente quer e não mede esforços para conseguir ou manter, mas que quando se torna palpável, real, nada se percebe além do presente grego que este sonho se torna.
é como tentar controlar  uma fera incontrolável, que quanto mais se expande, mais se torna cruel, agressiva e dominadora.
é quando a realidade toca o íntimo e transforma algo tão belo em algo tão invasivo quanto uma faca que atravessa o coração.
quando um sorriso não basta para dizer que está tudo bem, ou quando não aparecem as palavras de conforto que se precisa.
quando o pesadelo já dominou os sonhos e só resta acreditar que a esperança, um dia quem sabe, talvez, vença, ou se entregue.
difícil acreditar que que ainda seja possível que o pesadelo termine com um final feliz devido à todas as evidências e experiências comprovadas de que o mundo real não é nenhum conto de fadas.
quando talvez não há mais o que se esperar.

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RECESSO: DIA 1

Eu não preciso de um abraço hoje.

decidi que é horar de parar e apenas pensar.
colocar a cabeça e as idéias no lugar.
procurar um foco. uma razão pra mim.
tentar achar o sentido de muitas coisas que faço e tenho feito.
cair na real.
não me sinto sozinho. não me sinto carente. me sinto apenas sentindo nada. como um grande vazio dentro de mim.
meus dias estão sendo focados em mim. em meus problemas, em meus pensamentos, minhas angústias e minhas dores.
tenho coisas à superar. mas dessa vez eu preciso fazê-las sozinho.
hoje eu não quero um abraço, um beijo ou uma palavra de conforto.
hoje eu só preciso sentir todos os sentimentos que eu tenho que sentir e me deixar tomar.

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