palavrear

era proibido, esquecido, deturpado. um romance que jamais deveria ter sido contado.

a chave de todo pecado

teu perfume sobe as escadas, atravessa as paredes e portas de madeira de lei e penetram em minhas narinas, fazendo-me inebriar com sua chegada. penteio meus cabelos, coloco minha melhor roupa e vou te esperar na porta, como mandam as regras.
espero-te sentada de frente para a porta, com as pernas abertas revelando o meu segredo molhado. agarro-te pela gola da camisa suada, deixando que sua lingua entre em minha boca e suas mãos procurar as minhas fraquezas.
deixo que tire minhas roupas e me desnude como quem destrincha um pedaço de carne do osso, observando cada veia, cada nervo contraído, cada carne vermelha e reluzente que eu insisto em revelar.
me atrevo e tiro cada peça de roupa que cobre o teu corpo definido e escultural, molhado em suor e tesão. deixo-me levar e acabo puxando-te para perto do meu ventre.
fecho os olhos e percebo teu desejo rasgando meu íntimo, esfregando cada pedaço de carne em minha carne e cada pedaço de alma em minha alma num movimento frenético que rompe as barreiras do prazer.
percebo teus olhos penetrando os meus, assim como o teu desejo penetra em mim e me descobre de todos os pudores e segredos que eu possa esconder.
sinto-me em uma mistura de prazer e tortura, que não me deixa decidir se me largo e me entrego, ou se me prendo ao serviço e espero você terminar de cobrar a sua parte para que eu possa cobrar a minha parte do trato.
me entrego.
sinto o refulgor subir da ponta dos meus pés até minha nuca tensa. agarro-me às tuas costas com as unhas e arranho-te marcando cada gozo que eu tive, cada gemido que eu dei, como um músico marca o rítimo na partitura.
percebo suas coxas contra as minhas, seu peito acelerando em batidas ritmadas com seu coração. sua respiração aumenta ao mesmo tempo que a minha. somos a sintonia perfeita.
reviro os olhos enquanto me inundo com o seu prazer. me perco em sentidos e desfaleço em teus braços.
espero deitada enquanto vejo-te banhar e se vestir. a pior parte desta hora. fingir que não me importo com a partida de sua pele morena e dos seus olhos negros.
seguro em minhas maos o dinheiro que me dá, como se segurasse uma parte de ti comigo. como se segurasse dentro de mim sua carne macia e rígida.
vejo-te partir e me levanto, preparando para lavar o corpo, o íntimo, a alma e os lençóis sujos. agora só me resta esperar o próximo amante e o próximo pagamento.

Arquivado como:Hurricane Shirley

olhou bem nos meus olhos, chupou meu pau. [4]

e então, ele estava arrependido. de vítima, eu passei à algoz. me ligava todo dia, tentava me seduzir com palavras bonitas. era até legal. mas não era mais pra mim. eu tinha superado. eu tinha virado à página e continuado à reescrever minha história, antes fadada à desgraça.
ele simplesmente, depois que foi embora, percebeu que tinha errado. que por mim ele estava apaixonado e tinha sido duro demais.
talvez sim, talvez não.
o fato é que agora já é tarde. estou em outra. usando meu escudo e minha espada para não sofrer novamente. não me apaixonar. tornei frígido o meu corpo e meu coração.
mas depois de tudo o que eu passei, eu aprendi. deixei de ser aquela menina mimada que sempre sofria e se apaixonava pelos cafajestes. deixei minha inocência de adolescente para trás. pintei meus loiros cabelos do mais forte e mais vivo vermelho, tatuei o número sete, símbolo da totalidade e do anúncio de mudanças, nas costas, deixei as unhas crescerem e aderi ao uso de sapatos altos. deixei de ser menina e me tornei uma mulher decidida e forte.
passei à dormir de dia e fazer vida à noite. meus pais eram passado. não me procuravam mais, pois achavam que eu não valhia à pena. não era digna de carregar o sobrenome deles. infelizes.
o mundo perdeu uma menina chamada Shirley, mas ganhou uma mulher chamada Hurricane Shirley.
um furacão de mulher que chama a atenção por onde passa, que é desejada e cobiçada.
e ele? ah… ele se perdeu nos braços de uma vagabunda qualquer.
agora, com licença, tenho que ir trabalhar. afinal, a vida não se faz sozinha, né?! alguém tem que fazê-la.

Arquivado como:A História de Shirley, Hurricane Shirley

disse “tudo bem, tudo é natural” [3]

já havia passado um tempo desde o último encontro, então, Shirley, que não sabia conversar, resolveu chamar seu amado pra conversar.
- você apareceu como um cliente. me envolveu, me domou, controlou meus sentimentos e eu não fiz nada, mesmo estando ciente. agora, eu estou tão perdida que não sei mais o que fazer. não sei que rumo tomar em minha vida.
o amado mais que depressa pergunta:
- porque mudar? porque não deixar como está?
Shirley, inconformada com tal pergunta questiona e se questiona.
- o que pensas que sou? eu sempre faço o que tenho que fazer, mas você foi além. você me deu muito mais que prazer. me fez sentir mulher de verdade, me fez ver que posso conquistar outra realidade. e agora vem me ignorar? você acha que é fácil para alguém como eu, simplesmente amar?
assutado, aquele sem nome que antes era estranho, agora era um alguém, que não importava que nome tem.
- talvez você esteja errada. talvez não ame. talvez simplesmente queira ser amada. não é fácil pra você, eu sei. mas admita, dessa vez não fui eu que errei.
inconsolada com a crueldade daquelas palavras, Shirley se delata:
- eu parei de trabalhar! eu parei de para outros homens me entregar! por você! eu sonhei com você! eu esperei você! eu queria ser sua namorada! e agora você vem me dizer que eu era apenas a sua empregada?!
- se pensou assim, pensou errado. eu jamais seria seu namorado! veja se eu estarei com alguém, que pagando todo homem tem?! – disse aquele que magoava o coração da menina perdida.
pela primeira vez, Shirley chorava:
- não acredito que fale comigo assim! eu te dei tudo o que eu tinha e agora vem fazer repúdio de mim? eu te desejei, eu te amei, por você, eu até parei. e agora me trata como lixo? o que pensa que sou? posso até ser puta, mas baby, eu não sou lixo.
da forma mais irônica que possa existir, o desconhecido, até então amado, ignora os sentimentos dela:
- querida, que você é puta, eu sei. afinal de contas, fui eu que te paguei. mas aqui entre nós? você fode bem, mas eu jamais vou te apresentar à meus avós.

Shirley, mais que depressiva, expulsa aquele homem e de casa e decide voltar à vida. se arruma com a sua melhor roupa, passa a melhor maquiagem e, finalmente, decide voltar à sua viagem. finge que nada aconteceu e que estava doente, mas era possível perceber que, lá no fundo, ela estava doente. doente de amor, ou seja lá o que for.
dicidida à se encontrar novamente, ela escolhe à dedo o seu melhor cliente e resolve fazer promoção. deu desconto pra tudo e até não cobrou a condução.
estava doída e amargurada, mas tinha certeza que um dia ela iria ser uma boa namorada.
mas ela sabia que precisava ter coragem e, para sempre vestir o personagem. era hora de dar a volta por cima e deixar de ser Shirley, pois, apartir de agora, ela seria, para sempre o furacão.
nunca mais ela soube novamente o que era o amor. mas sabia que um dia, esse sentimento iria voltar à bater em sua porta.

Arquivado como:A História de Shirley, Hurricane Shirley

o fogo

às vezes, do nada, o fogo surge e queima tudo.
como o amor ou as sombras.
que dominam, cegam e marcam.
que deixam cicatrizes.
e que depois, do mesmo nada, somem.

o fogo.
que consome, destrói.
que impede que algo cresca.
que impede que o brilho apareça.

fogo que queima.
que usa de seu poder para inutilizar toda a esperança que existe.
que faz sangrar até o mais duro dos troncos.
que faz chorar até o mais seco dos olhos.

fogo que inebria.
que faz delirar no mais alto calor.
que coloca em sono profundo até o mais forte coração.
que mata sonhos, famílias e amores.

fogo que esquenta.
que aquece os corpos no meio da noite.
que faz suar.
que arranca dos corpos a roupa que não tem mais cabimento.

fogo que revela.
que coloca pra fora até os mais íntimos feitiches.
que exprime todo o desejo entre dois corpos.
que usa e abusa do prazer.

fogo que permite.
que libera o que se esconde por dentro.
que revela as máscaras que os tímidos usam.
que retira o pudor daqueles que se prezam.

fogo que arde.
fogo que pega.
fogo que gruda.
que seja amarelo, azul ou vermelho.
que seja fogo.

Arquivado como:Diogo Moraes, Hurricane Shirley, Poema/Poesia

quando dei por mim pensei: “que sorte” [2]

passavam-se as noites,
e ele sempre voltava para mim.
lá estava eu denovo:
deitada e exposta, descomposta,
sendo usada por aquele que dominava meu ar.
perdida entre lembranças da nossa última dança.
aonde ele me domou como se eu fosse uma gata selvagem,
e me fez tão louca que eu não parava de pensar nele.
agora que estou de volta, esqueçendo, é ele quem volta.
me consumindo e me destruindo,
tirando de mim o sentido de tudo que faço.
me fazendo perder o compasso.
mãos e linguas que me percorrem,
e o  sor que de mim escorre,
são os sinais de que estou entregue.
presa numa cadeia de juras sem fim,
era o que eu menos precisava pra mim.
agora estou presa e apaixonada,
pelo rastro que aquele mastro deixou.
era o fim dos meus dias de puta?
disso eu não tinha certeza absoluta,
a única certeza de que tinha,
era que ele sabia que eu era astuta,
e jamais me deixaria sozinha.
por lá no fundo ele sabia,
que se eu pudesse escapar,
eu voltaria à viver minha vidinha.
e agora Shirley?
que atitude irá tomar?

Arquivado como:A História de Shirley, Hurricane Shirley

me levou prum cantinho e disse morde [1]

era menina, perdida, desastrada e sozinha,
vivia chorando pelos cantos em função das pancadas que a vida me dava,
mas uma hora, agente resolve mudar e seguir.

tentei achar vários caminhos, mas perdida, não encontrei,
tentei viver sob a luz do sol, mas como vampira, me queimei,
até que achei a noite e decidi fazer da vida, minha vida.

me entreguei ao caminho sem volta das esquinas,
embonecada como uma mulher, parecia perdida,
até que ele apareceu…

chegou todo pinta, cheio de dinheiro no bolso, tirando minha cinta.
olho azul penetrante, embalado pelo rítimo do corpo pulsante,
me consumindo e me distraindo da destruição lá fora.

eu gemia e pedia mais, enquanto eu via que ele era bem capaz,
me comeu e me contorçeu enquanto eu tentava escapar,
mas seus cabelos angelicais simplesmente me faziam suar.

todo lindo e todo prosa, me deixou cada vez mais folgosa,
e enquanto meu olho virava, cada vez mais eu suspirava,
e quanto mais ele entrava, mais eu gritava.

era somente eu: a mulher, a puta e a escrava.
eu era vendida, consumida e bandida… desejada.
eu era o demônio frio possuindo aquele anjo ardente.

era o pecado abusando dos olhos azuis daquele adão intocado e fervente.
o começo de uma história.

Arquivado como:A História de Shirley, Hurricane Shirley, Poema/Poesia

crise de identidade (rimada) – não recomendado para pessoas religiosas ou menores: CONTEÚDO ADULTO E HEREGE

não sei mais o que faço:
se me ajoelho ou se me desfaço,
se uso batina ou gargatilha de aço,
se rezo uma preçe ou tiro o seu cabaço.

preciso de uma luz urgente,
estou em duvida se mudo ou viro gente.
tudo depende do tamanho do seu pingente,
mas duvido que comigo você aguente!

acho que vou entrar prum convento,
pra ver se com os padres eu me contento.
ou talvez eu corra pelada pela rua,
pra minha “menina” sentir o vento.

será que o crucifixo é o bastante grosso?
porquê eu não quero precisar fazer esforço.
tomara que tenha padre gostoso,
é a coisa que eu mais torço.

tomara que eu tenha sorte na vida religiosa,
afinal, é difícil ser uma freira gostosa.
acho complicado eu ficar abstinênte,
afinal, eu sempre fui uma puta folgosa.

Arquivado como:Hurricane Shirley, Poema/Poesia

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