palavrear

era proibido, esquecido, deturpado. um romance que jamais deveria ter sido contado.

se não te quero mais

longe de tudo, longe de ti,
espero que, um dia, você volta
e perceba o que perdeu.

mas quando te tenho por perto,
sinto um aperto no peito,
e perco a vontade de estar aqui.

queria poder dizer que sumi,
e que de ti não quero mais palavras,
porém eu não consigo.

ainda estou preso à uma ilusão,
essa tanto que me corrói,
e me tira o ar até o fim.

entretanto, não é para tanto o desespero,
eu estou tentando te esqueçer,
e esse amor não é o primeiro.

pois peço então que não me procure mais,
siga seu caminho longe do meu,
e permita-me, finalmente, viver em paz.

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a musa do poeta cego

atiro uma pedra,
na janela do poeta,
que outrora veio à mim.

e desejo que o mesmo,
me veja do vidro na janela,
e pergunte “quem é ela que me pertuba assim?”

me sento e espero,
que desça da torre,
aqueles olhos de marfim.

e, quando ouve minha voz, sorri,
abre os braços e me procura no ar,
dizendo “te quero comigo até o fim”.

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soneto para um raio de sol

se faço o espaço, desfaço o sentido
do ritimo e da dança, façanha de
nossa andança e esperança de te
ter de volta.

e se te quero, disfarço, refaço o
compasso do sentido de nós, e de todo
o passado que o homem viu, somente
à saudade serviu.

e perdido no tempo, pergunto pro
vento porque te trouxe de volta, toda
torta, pros braços meus.

e ele responde constante e distante
que passou a hora de você ir embora,
e agora só resta estar aqui.

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headache

acordo e a cabeça dói de todos os lados.
talvez seja sinal de algo,
ou talvez não seja nada demais.
acordar nem sempre é a melhor opção.

estico as pernas como faz um cachorro,
e meu cheiro não difere muito.
me sinto empesteado com o cheiro dela,
uma cadela deitada ao meu lado.

ligo pra recepção e de nada adianta,
já se passou a hora do café,
e agora é a hora da janta.
maldita lembrança que me falha.

preciso urgente de uma xícara de café,
daquela água suja e preta viciante.
preciso agora aliviar minha dor.

mas decido por não sair do quarto,
maior que a vergonha é a admitir,

que dormi e amei aquela vagaba.

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elas e meu amor próprio

larguei de mão todos os amores,
pra me amar mais que à qualquer um,
desejei que estes tivessem sabores,
até que, de tanto consumir, não sobrasse nenhum.

fechei todas as portas e janelas,
e não permiti que mais ninguém entrasse,
pois eu me amo mais que à elas,
e nunca esperei que isso mudasse.

até que um dia aconteceu,
e eu me vi apaixonado,
não sei o que me deu,
mas tudo estava mudado.

me vi perdido e arastado,
não sabia mais como me amar,
até que nada tivesse sobrado,
com elas tive que me contentar.

mas então quando tudo acabou,
é que fui me reconstruir,
esqueci de todas que meu coração amou,
e um amor por mim fui nutrir.

me amei no banho e na cama,
no espelho, de noite e de dia,
como ninguém jamais me ama,
me amei santo e em ousadia.

desde então ninguém mais entrou,
evitei que qualquer sentimento acontecesse,
meu coração para o mundo se fechou,
e, enfim, evitei que meu coração denovo se abatesse.

uns até me perguntaram se eu não sinto dor,
se não sofro por estar sozinho,
se não sofro por não ter um grande amor,
se não quero, um dia, construir meu ninho.

mas eu nunca entendi essa necessidade,
de ter alguém eternamente o lado,
se dentre tantos nessa cidade,
qualquer um que passe é passado.

talvez, um dia, eu me renda ao amor outra vez,
e me deixe levar pelas ondas e o mar,
talvez, um dia, eu deixei de ser solitário de vez,
e aí eu amarei, mas sem deixar de me amar.

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o conselheiro

vou colocar uma placa na porta,
avisando dos meus serviços à todos.
com letras bem grandes e coloridas,
em um tom de verde esmeralda,
escrito para que leiam de longe:
“o conselheiro”.
vou avisar que entendo de tudo,
nem que seja pelo menos um pouco.
que antes eu apenas divertia,
mas que agora eu costumo advertir.

vou deixar que não saibam o que penso,
enquanto eu desvendo cada um,
cada paciente e impaciente,
que se extender no meu divã.
administrarei em doses homeopáticas,
tudo aquilo que sei,
e aquilo que ainda vou aprender.
deixarei que andem sozinhos pra longe,
mas que sozinhos possam voltar,
e ainda saibam aonde se sentar.

vou abrir as janelas o máximo que puder,
e deixar que nela entra o ar,
pois além de tentar se entender,
as pessoas devem também tentar respirar.
tentarei explicar que eu sou apenas utensilho,
que a habilidade é toda deles,
e que só eles têem o poder de se curar.
mas jamais vou me fingir de perfeito,
pois além de tudo eu tenho erros,
e nem de mim eu sou prefeito.

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o paletó

hoje eu coloquei minha melhor roupa.
uma calça que não está suja,
uma camisa social, um pulôver e um paletó.
penteei o cabelo e até óculos de grau.
somente pra me olhar no espelho.
quis viver a fantasia de parecer alguém.
e vivi.

hoje eu coloquei minha melhor roupa.
tentei imaginar quando eu me vestiria assim,
e só pude me deparar com o futuro próximo.
imaginei-me entrando em uma sala
usando os mesmos óculos do espelho.
quis viver a fantasia de ser alguém.
e vivi.

hoje eu coloquei minha melhor roupa.
pude ver o poder que aqueles olhos tinham,
e acabei notando que aquele poder era todo meu.
sentei e senti o poder escorrendo.
vi os mesmos olhos atrás do espelho.
quis viver a fantasia de ter poder.
e vivi.

hoje eu coloquei minha melhor roupa,
só para tirar depois,
e continuar esperando o dia,
dia de nunca mais tirar.

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